DEPOIS
Sumi de novo com quem importava e não sei como voltar
Você sumiu sem querer e não voltou. Não teve decisão em lugar nenhum: teve um dia em que responder ficou pesado, e depois um dia em que responder ficou mais pesado por causa do primeiro.
Cada dia a mais deixa a mensagem mais difícil de escrever, o que acrescenta mais um dia. É um circuito e ele não tem fundo.
O que cabe nos próximos dez minutos
Você não precisa decidir agora se manda alguma coisa. O que vem abaixo leva dez minutos e não obriga você a nada.
[TAREFA DE CAMPO]
Escreva a mensagem sem mandar. Três linhas, não mais que isso.
Não ponha o motivo dentro. O motivo é o que levou oito meses para virar frase, e ele não cabe ali.
Não peça nada. Nem resposta, nem encontro, nem perdão.
Largue o celular. A decisão de mandar é de amanhã, não de hoje à noite.
E uma coisa que você tem direito de fazer: não mandar nada. Uma mensagem escrita e guardada conta como ensaio, porque a dificuldade nunca esteve no botão.
O que esta página não te diz
Ela não diz o que essa pessoa faz com a sua mensagem. Não diz que oito meses de silêncio se recuperam, não diz quanta gente responde num caso desses, e não diz se essa aqui é do tipo que responde.
Uma página que promete resposta faz uma afirmação sobre alguém que nunca encontrou, para alguém que acredita nela porque quer acreditar. O que ela pode fazer é deixar a mensagem escrevível, e isso é menor e é real.
Por que o motivo não entra na mensagem
Porque o motivo que você levou meses para formular é a explicação do seu percurso, e a mensagem não está ali para explicar o seu percurso. Um parágrafo de contexto pede, sem dizer, para ser entendido, e pedir para ser entendido ainda é um pedido.
Três linhas sem pedido nenhum deixam quem recebe livre para fazer o que quiser, inclusive nada. É isso que as torna suportáveis de receber, e é isso também que as torna possíveis de escrever.
[FRASE DE INTERRUPÇÃO]
Eu sumi. Não foi por sua causa e eu não vou me estender nisso.
Penso em você. Você não precisa responder nada.
O que aconteceu antes do silêncio
O circuito não começa quando alguma coisa vai mal. Ele começa quando alguma coisa vai bem, e é por isso que o silêncio começou no momento mais difícil de explicar depois: ninguém procura a causa de um afastamento no meio de uma semana boa.
O primeiro elo quase sempre é um aperto no peito quando o nome aparece na tela. O gesto que vem em seguida é minúsculo: uma mensagem deixada aberta, para responder mais tarde. Nada nesse instante se parece com ir embora, que é exatamente por que ninguém deu nome àquilo, você inclusive.
[MECANISMO]
Sinal do corpo, depois pensamento, depois janela, depois gesto, depois alívio.
Três a sete segundos entre o aperto e o celular de volta na mesa. Essa é a janela.
O motivo chega depois do gesto, já pronto. Ele explica uma decisão que já tinha acontecido.
A mensagem escrita e guardada conta. A dificuldade nunca esteve no botão.