DEPOIS

    Voltei pra pessoa que me machuca e não sei explicar

    Você voltou e já sabia disso antes. Não foi uma surpresa para você: em algum momento da semana passada a volta já estava decidida, e mesmo assim ela chegou com cara de decisão tomada na hora.

    Antes de tudo, e sem rodeio. Se você corre perigo dentro dessa relação, ou se alguém já levantou a mão para você dentro da sua casa, isso vem antes desta página e antes de qualquer padrão.

    188, o CVV, Centro de Valorização da Vida. Ligue 188 de qualquer telefone, fixo ou celular, de qualquer lugar do Brasil. Atende 24 horas por dia, todos os dias do ano, com sigilo e sem precisar dizer quem você é.

    192, o SAMU, para uma emergência médica. 190, a Polícia Militar, quando o risco é imediato. Você não precisa ter certeza de que é grave o bastante para ligar.

    Ligue 180, a Central de Atendimento à Mulher. Funciona 24 horas por dia, todos os dias, inclusive sábado, domingo e feriado, e o atendimento é sigiloso. Se o que acontece dentro da sua casa assusta você, essa pergunta vem antes de qualquer padrão.

    Se o que você precisa não é socorro imediato e sim atendimento continuado, procure o CAPS, o Centro de Atenção Psicossocial. O CAPS atende por demanda espontânea, sem encaminhamento de outro serviço, e a unidade básica de saúde do seu bairro ou a secretaria de saúde do seu município informa qual fica mais perto de você.

    Se você está fora do Brasil: findahelpline.com/pt-BR lista linhas de apoio verificadas país por país, em português.

    Se você está em perigo agora, ligue para o número de emergência do país onde você está.

    O que fazer nos próximos dez minutos

    Você não vai decidir nada hoje. Ninguém decide o rumo de uma relação às onze da noite do dia em que voltou, e tentar decidir agora só produz mais uma decisão que não se sustenta amanhã de manhã.

    [TAREFA DE CAMPO]

    Escreva a data de hoje em algum lugar. Só a data, e uma linha do que aconteceu na hora antes de você voltar.

    Se existe uma pessoa com quem você fala das coisas, mande uma linha para ela hoje. Não precisa ser a história inteira e não precisa ser explicada.

    Coma alguma coisa e beba água. Isso não é conselho de vida, é o que faz a próxima hora passar.

    Não apague as mensagens da semana passada. O registro serve daqui a três semanas, quando a versão oficial já estiver pronta.

    E uma coisa que você tem direito de fazer: nada. Não sair, não prometer nada a você mesmo, não jurar que dessa vez é diferente. Hoje só precisa acabar.

    O que esta página não te diz

    Ela não diz se essa relação tem futuro. Não diz que agora fica diferente, não diz que a conversa dessa vez pegou, e não diz o que acontece na próxima vez que a mesma cena começar.

    E ela não manda você sair. Um texto não conhece essa relação por dentro, não sabe o que você já tentou, e uma ordem de sair vinda de uma página é a mesma ordem que você já recebeu de gente que não voltou depois para ver o que ela custou.

    O que ela faz é uma coisa só, e é sua: nomear o instante em que a volta foi decidida. Ele não foi hoje.

    A volta não começou hoje

    A decisão foi tomada num intervalo de três a sete segundos, alguns dias atrás, e não teve nada de dramático nela. Foi um aperto no peito, um pensamento que chegou pronto, e uma mensagem respondida antes de você conferir se queria responder.

    O que veio depois foi a construção do motivo, e o motivo é bom: as coisas boas que de fato existem, as circunstâncias, o que a outra pessoa está atravessando. Tudo verdade, e tudo posterior ao gesto. A versão oficial se escreve sozinha e ela sempre chega com data errada.

    [MECANISMO]

    O sinal do corpo vem antes do pensamento. Não é saudade: é uma queda que a saudade explica depois.

    O alívio de ter voltado dura poucas horas, e é ele que ensina o corpo a repetir.

    A escolha não parece escolha porque a janela é curta demais para parecer coisa alguma.

    Não é atração, é escolha

    Escolher não quer dizer querer, e não quer dizer merecer. Quer dizer que existe um circuito que reconhece um tipo específico de instabilidade e lê aquilo como familiaridade. Familiaridade é o que o corpo procura quando não sabe mais o que procurar.

    Isso não é defeito de caráter e não é falta de amor-próprio. É um código instalado numa idade em que ninguém escolhe o próprio código, rodando agora num corpo adulto que sabe ler e ainda assim obedece.

    [RECONHECIMENTO]

    Você percebeu o ciclo antes de qualquer pessoa te falar dele.

    Você já sabia, na terceira semana, como aquilo ia terminar.

    E voltou assim mesmo, que é a parte que você não consegue explicar para ninguém, inclusive para você.

    Você voltou hoje e isso tem data. A data é a única coisa que dá para ler depois.