OUTRA PESSOA
O que fazer quando meu filho quer desistir da faculdade?
Seu filho fala em largar o curso. Às vezes no meio de um semestre, às vezes logo depois de uma nota boa. Você pensa nos anos de estudo, no vestibular, no dinheiro.
Esta página fala do seu lado disso. Leia antes da próxima conversa. Ela não diz o que o seu filho é, porque isso seria um veredito sobre alguém que nunca abriu um arquivo aqui.
Uma saída muitas vezes é só uma saída. Entrar num curso e descobrir que não é aquilo é comum. Esta página ajuda a separar isso da saída que pede um olhar mais de perto.
Antes do resto
Isto vem primeiro, e não é acusação. Quem quer sair de um curso às vezes está saindo de uma pessoa ou de um lugar, não das aulas. Uma república, um grupo, um professor, um trote, uma cidade nova longe de casa.
Se o seu filho parece outra pessoa ao telefone, parou de dormir ou de comer, ou fala em se machucar, isso pede ação hoje, antes de qualquer conversa sobre o curso.
Estas linhas atendem também quem liga preocupado com outra pessoa, inclusive com um filho adulto que mora longe.
188, o CVV, Centro de Valorização da Vida. Ligue 188 de qualquer telefone, fixo ou celular, de qualquer lugar do Brasil. Atende 24 horas por dia, todos os dias do ano, com sigilo e sem precisar dizer quem você é.
192, o SAMU, para uma emergência médica. 190, a Polícia Militar, quando o risco é imediato. Você não precisa ter certeza de que é grave o bastante para ligar.
Se o que você precisa não é socorro imediato e sim atendimento continuado, procure o CAPS, o Centro de Atenção Psicossocial. O CAPS atende por demanda espontânea, sem encaminhamento de outro serviço, e a unidade básica de saúde do seu bairro ou a secretaria de saúde do seu município informa qual fica mais perto de você.
Se você está fora do Brasil: findahelpline.com/pt-BR lista linhas de apoio verificadas país por país, em português.
Se você está em perigo agora, ligue para o número de emergência do país onde você está.
Você não precisa ter certeza de que é grave o bastante para ligar.
Se nada disso é o caso, olhar não custou nada. O que vem a seguir parte do princípio de que você olhou.
O que você está vendo
Olhe o momento antes do motivo. Uma vontade de sair depois de um semestre pesado é uma coisa. Uma vontade de sair que chega na semana de um estágio conquistado, de uma nota alta ou de um convite para um projeto é outra.
Olhe o motivo que ele dá. Não é a minha área. Não tem sentido. Estou cansado. Muitas vezes isso é verdade. Às vezes o motivo parece sensato e chega exatamente quando a aposta subiu.
[OBSERVAÇÃO DE CAMPO]
Anote quando a conversa sobre largar o curso apareceu, e o que tinha acontecido na semana anterior.
Repare se ela aparece depois de um tropeço ou depois de uma conquista.
Repare no que você disse nos primeiros trinta segundos, palavra por palavra.
A saída que pede um olhar mais de perto
Existe uma forma em que uma pessoa recua justamente quando uma coisa começa a dar certo. Ela não chega como vontade de fracassar. Chega como bom senso: isso não é para mim, tenho outras coisas a fazer.
Acertar sobe a régua. Agora existe algo a perder, e tem gente olhando. Sair encerra o olhar. Essa é a forma. Não é um rótulo para o seu filho, e esta página não vai dar um.
O interesse não acabou quando ficou difícil. Acabou quando ficou bom.
O que isso não é
Não é um veredito sobre o seu filho. Querer sair não faz de ninguém alguém que não termina nada, e esta página não vai chamar ele de coisa nenhuma.
Não é uma coisa que você causou, e não se resolve com um discurso melhor. A vontade de sair dispara poucos segundos antes de qualquer coisa que você diga.
E não é mais uma decisão sua. Um filho adulto escolhe o próprio curso. O que sobrou para você é a conversa, e o jeito como você entra nela.
O que acontece no seu corpo
Repare no que acontece em você quando ele diz a palavra. Calor no peito. O maxilar travado. Um sermão sobre compromisso já se formando.
[MECANISMO]
Esse calor é o sinal do corpo, o primeiro aviso físico de que o seu próprio padrão começou. Ele chega antes de você decidir qualquer coisa.
Depois dele vem a janela, os poucos segundos entre o sinal e a resposta de sempre.
A resposta de sempre: o discurso sobre quem larga tudo, a conta do dinheiro já gasto, um não seco, ou ceder na hora para acabar com a cena.
Cada uma acalma o seu desconforto. Nenhuma descobre do que se trata a saída.
O que está ao seu alcance
Pergunte antes de julgar. Uma pergunta simples, num dia calmo: o que mudou? Depois escute, e não discuta a resposta.
Separe o compromisso do curso. Terminar um semestre já pago, ou trancar em vez de abandonar, é uma decisão. Seguir na mesma carreira por anos é outra.
Diga o que é seu dizer, uma vez. Se existe ajuda com dinheiro que depende do curso, diga o que você pode e o que não pode, como um fato, sem ameaça.
[TAREFA DE CAMPO]
Quando ele disser que quer sair e você sentir o calor no peito, repare e dê nome: é o meu padrão começando.
Interrompa a resposta de sempre antes do sermão e escolha uma ação diferente: uma pergunta só, o que mudou?, e depois silêncio.
Repita essa ação diferente em cada conversa sobre o curso, até ela ficar mais fácil de alcançar do que o discurso.
E uma coisa não está ao seu alcance: o caminho que ele escolhe depois. Nenhuma página consegue prometer onde isso termina, e esta não vai tentar.
O que isso está custando para você
Veja o que mudou em você. Se cada telefonema virou negociação. Se você sente o dinheiro mais do que o filho. Se a saída dele começou a parecer um fracasso seu.
Essa última, em especial, tem um sinal do corpo que dá para pegar, e ela é sua, não dele.
Meu filho quer desistir da faculdade. O que eu faço?
Desacelere. Não decida no telefonema em que ele contou. Pergunte o que mudou, e quando. Se a resposta é cansaço depois de um período longo, muitas vezes é só verdade, e trancar costuma pesar menos do que abandonar. Se a resposta é vaga e o momento é logo depois de uma conquista, repare nisso e anote. Se ele parece outra pessoa, as linhas no começo desta página vêm primeiro. A decisão do curso é dele. A sua é o jeito de conversar.
O arquivo que você pode abrir
Conte com honestidade. Não os semestres pagos. O calor no peito quando ele fala em sair. A régua que você carrega desde antes de ele nascer. O raciocínio que termina sempre no mesmo lugar: se ele largar, fui eu que falhei.
Esse raciocínio tem arquivo neste acervo. Ele se chama A Armadilha do Perfeccionismo, está escrito sobre o seu corpo e não sobre o do seu filho, e começa no calor que sobe poucos segundos antes do sermão. Se você reconheceu esse calor, esse arquivo pode ser seu. É a única parte disso em que dá para trabalhar diretamente.
As perguntas que chegam junto com essa
O que fazer quando meu filho quer desistir da faculdade?
Desacelere e pergunte o que mudou, e quando. Não decida no primeiro telefonema. Repare se a vontade de sair chegou depois de um tropeço ou depois de uma conquista, e lembre que a decisão do curso é dele.
E se for a minha filha que quer largar o curso?
O mesmo vale. Uma pergunta, escuta sem discutir, e atenção ao momento. Se ela parece outra pessoa, ou fala em se machucar, as linhas no começo desta página vêm antes de qualquer conversa sobre o curso.
Eu devo obrigar meu filho a terminar a faculdade?
Um filho adulto escolhe o próprio curso. O que é seu é dizer, uma vez e como fato, o que você pode e o que não pode bancar. Pressão costuma virar briga, não diploma.
Trancar é melhor do que abandonar?
Muitas vezes pesa menos, porque deixa uma porta aberta sem obrigar ninguém a atravessar. É uma opção para pôr na mesa, não uma decisão para tomar por ele.
Por que ele quer sair justo agora que estava indo bem?
Esta página não sabe o que se passa dentro dele. Existe uma forma em que a pessoa recua justamente quando a coisa começa a dar certo, porque acertar sobe a régua. Isso é uma forma, não um rótulo.
A culpa é minha de ele não querer mais estudar?
Isso é um veredito, e esta página não dá vereditos. A vontade de sair dispara antes de qualquer coisa que você diga. O que é seu é a conversa que vem depois.
O que eu falo na primeira conversa?
Uma pergunta: o que mudou? Depois, silêncio e escuta. Sem a conta do dinheiro gasto e sem o discurso sobre quem larga tudo.
E se ele estiver saindo por causa de alguém na faculdade?
Pergunte quem está lá, e não só o que se faz lá. Se houver medo de uma pessoa ou de um lugar, isso vem antes do curso, e as linhas no começo desta página atendem quem liga preocupado.
Por que eu levo isso tão para o lado pessoal?
Porque a saída dele toca a sua própria régua. Isso tem um sinal do corpo, o calor no peito, e é a única parte desta história que roda no seu corpo e que você consegue interromper.
Qual é o sinal do corpo quando ele fala em largar o curso?
Muitas vezes calor no peito ou o maxilar travado, com o sermão já pronto. Ele chega poucos segundos antes da resposta de sempre. É ali que cabe uma pergunta só.
O ACERVO
O que já existe em português e o que ainda não existe está escrito na porta.
O que existe em português