OUTRA PESSOA

    Por que nada do que eu faço está bom para a minha mãe?

    Sua mãe encontra a única coisa faltando. Você conta uma boa notícia, e a primeira pergunta é sobre o que deu errado.

    Esta página fala do seu lado disso. Ela não diz o que a sua mãe é. Isso seria um veredito sobre alguém que nunca abriu um arquivo aqui.

    Antes do resto

    Uma cobrança dura não é a mesma coisa que medo dentro de casa. Se um erro seu traz ameaça, grito que assusta ou agressão, isso vem primeiro.

    Se você ainda mora com ela e errar dá medo, comece por aqui. Estas linhas vêm antes de qualquer padrão.

    Disque 100, o Disque Direitos Humanos. Ligue 100 de qualquer telefone, 24 horas por dia, todos os dias. A denúncia pode ser anônima.

    188, o CVV, Centro de Valorização da Vida. Ligue 188 de qualquer telefone, fixo ou celular, de qualquer lugar do Brasil. Atende 24 horas por dia, todos os dias do ano, com sigilo e sem precisar dizer quem você é.

    192, o SAMU, para uma emergência médica. 190, a Polícia Militar, quando o risco é imediato. Você não precisa ter certeza de que é grave o bastante para ligar.

    Se o que você precisa não é socorro imediato e sim atendimento continuado, procure o CAPS, o Centro de Atenção Psicossocial. O CAPS atende por demanda espontânea, sem encaminhamento de outro serviço, e a unidade básica de saúde do seu bairro ou a secretaria de saúde do seu município informa qual fica mais perto de você.

    Se você está fora do Brasil: findahelpline.com/pt-BR lista linhas de apoio verificadas país por país, em português.

    Se você está em perigo agora, ligue para o número de emergência do país onde você está.

    O primeiro número recebe denúncia sobre criança e adolescente, inclusive de quem mora na casa. O segundo atende você, por você, a qualquer hora.

    O que você está vendo

    O elogio chega com uma correção junto. Ficou bom, mas. O bom dura pouco. A atenção vai toda para o mas.

    Você arruma a cozinha e ela passa o pano de novo na pia. Você conta que passou numa prova, e a pergunta é sobre a nota que faltou.

    O que mais pesa é a conferência. O que você faz é olhado antes de valer. Depois de anos, você passa a conferir por ela, antes de mostrar.

    [OBSERVAÇÃO DE CAMPO]

    Anote o que você mostrou para ela esta semana e qual foi o primeiro comentário.

    Repare quantas vezes o elogio veio sozinho, sem nenhuma correção junto.

    Repare se você explicou o defeito antes de ela encontrar.

    Repare em como o seu corpo fica enquanto ela olha.

    Por que nunca foi sobre o que você fez

    Uma régua assim costuma estar na casa antes de você. Você encontrou com ela antes de saber segurar um lápis.

    Uma criança não enxerga isso. Uma criança conclui que o jeito é fazer melhor. Então você fez melhor, e a régua subiu junto.

    É essa a parte que vale saber. A régua subiu porque o seu trabalho nunca foi o que a colocava no lugar. Nenhum resultado seu era a coisa que ela media.

    Você refez a mesma mensagem cinco vezes, e na quinta ainda ouviu a voz dela lendo.

    O que isso não é

    Querer a aprovação da própria mãe não é fraqueza. Todo filho quer. O problema é só que essa aprovação mudava de lugar.

    Também não é uma coisa que se resolve acertando. Você já tentou isso. A recompensa foi uma coisa nova para corrigir.

    E sair da régua dela não é sair de perto dela. Dá para gostar de uma mãe e parar de fazer prova para ela.

    [RECONHECIMENTO]

    Você já apontou o erro do próprio trabalho antes de entregar, só para chegar primeiro.

    Você já deixou de contar uma conquista porque sabia qual seria a pergunta.

    Você já ouviu um elogio dela e ficou esperando o resto da frase.

    Você já corrigiu alguém do mesmo jeito e ouviu a voz dela na sua boca.

    O que está ao seu alcance

    Você não muda a régua da sua mãe. O que você muda é o que entrega para ela conferir.

    A primeira coisa é mostrar o resultado e guardar o rascunho. Não é preciso levar cada etapa para ser olhada antes de valer.

    A segunda é parar de fazer prova. Isso quer dizer não explicar o defeito antes que ela encontre. Entregar a coisa e deixar que ela fique de pé.

    A terceira é reparar em qual voz está conferindo. Quando você relê uma mensagem cinco vezes, pergunte de quem são os olhos que estão lendo.

    Se você ainda mora com ela, o espaço é menor. Guardar algumas coisas até ficarem prontas continua valendo. Se não mora, distância também é sua. Visitas mais curtas e menos relatórios são uma decisão, e não um veredito.

    [TAREFA DE CAMPO]

    Durante duas semanas, anote cada coisa que você mostrou para ela antes de estar pronta.

    Ao lado, anote o primeiro comentário e como o seu corpo ficou.

    Marque as vezes em que você explicou o defeito antes de ela ver.

    O caderno é seu e não vai para nenhuma conversa com ela.

    O arquivo que você pode abrir

    Existe uma pergunta que só você pode fazer. A régua dela ficou em você, mesmo quando ela não está olhando?

    Às vezes não, e basta mudar o que você entrega. Às vezes sim. A conferência continua rodando sozinha, em trabalhos que ela nunca vai ver. Nada fica pronto, porque nada passa na última leitura.

    Essa forma tem arquivo próprio neste acervo e se chama A Armadilha do Perfeccionismo. Ele está escrito em segunda pessoa, sobre o seu corpo e não sobre o dela. Começa no aperto que aparece na hora de entregar, poucos segundos antes de você voltar para corrigir.

    As perguntas que chegam junto com essa

    Por que a minha mãe sempre acha defeito em tudo?

    Esta página não sabe o que se passa dentro dela e não vai adivinhar. O que dá para ver é o formato. O elogio chega com uma correção junto. E a régua sobe cada vez que você chega nela.

    Se eu fizer tudo certo, ela vai parar?

    Ninguém de fora sabe, e quem responde isso está adivinhando. A sua própria história já mostrou uma coisa. Acertar mais trouxe uma coisa nova para corrigir, e não um ponto final.

    Querer que a minha mãe aprove o que eu faço é fraqueza?

    Não. Todo filho quer a aprovação da própria mãe. O cansaço vem de uma aprovação que muda de lugar cada vez que você chega perto dela.

    Por que eu aponto os meus erros antes que ela encontre?

    Porque chegar primeiro no defeito parece doer menos do que ouvir o defeito da boca dela. É um jeito de se proteger que foi aprendido cedo. Ele também mantém você fazendo prova para ela, o tempo todo.

    Eu devo falar com ela sobre isso?

    Pode ser, e a página não escreve esse discurso. Sem conversa nenhuma, uma coisa já está ao seu alcance. É o que você entrega para ela olhar, e quando.

    Por que o elogio dela não me deixa em paz?

    Porque ele costuma vir com um mas logo depois. Depois de anos, o corpo aprende a esperar o resto da frase. E o elogio fica sem lugar para pousar.

    Ainda moro com a minha mãe. O que dá para fazer?

    O espaço é menor, e isso é real. Guardar algumas coisas até elas ficarem prontas continua valendo. Se errar dentro de casa traz medo, as linhas no alto da página vêm primeiro.

    Me afastar dela não é falta de amor?

    Sair da régua dela não é sair de perto dela. Visitas mais curtas e menos relatórios são uma decisão sobre o seu tempo. Não são uma sentença sobre ela.

    Por que eu cobro dos outros do mesmo jeito que ela?

    Uma régua aprendida cedo costuma rodar para os dois lados. Perceber a voz dela na sua boca é justamente o começo de conseguir separar as duas.

    Eu posso mostrar esta página para ela?

    Uma página entregue por você se lê como acusação. Um nome dito de fora é um veredito. Se a procura partir dela um dia, a página está aqui. A leitura que devolve alguma coisa é a sua.

    Por onde eu começo?

    Pela próxima coisa que você for mostrar para ela. Mostre pronta, sem explicar o defeito antes. Depois anote o primeiro comentário e como o seu corpo ficou.

    O ACERVO

    O que já existe em português e o que ainda não existe está escrito na porta.

    O que existe em português